Antonio Barros de Castro.
Escrevendo durante a Segunda Guerra Mundial, Schumpeter defendeu a tese de que no capitalismo real a competição entre as empresas se dava, cada vez mais, através do lançamento de novos produtos, da adoção de novos processos produtivos, e da descoberta de novas formas de organização. Numa palavra, através de "inovações". E para que não pairassem dúvidas sobre a relevância do tema, lança mão de uma poderosa imagem: a competição via inovações era tão mais potente que a tradicional (baseada em preços), quanto "um bombardeio comparado ao ato de forçar uma porta". Além disto, acrescentava o autor, com extrema perspicácia, que num mundo caracterizado pela competição via inovações, "o homem de negócios está submetido à competição, mesmo quando sozinho em seu campo." (Capitalism, Socialism, and Democracy, Harper Books, 1976, pgs 84 e 85).
As tecnologias da informação e da comunicação e, a elas associada, a globalização, contribuíram para um acirramento ainda maior das pressões competitivas a que estavam submetidas as empresas, nas últimas décadas do século XX. Primeiramente pelo drástico barateamento da capacidade de experimentar, de simular e de construir protótipos (virtuais). Além disto, porque a capacidade multiplicada de gerar, transmitir, e controlar informações, tornou incomparavelmente mais barato - e também mais atraente - separar a concepção (design) de novas mercadorias, de sua produção, no sentido tradicional do termo.
A separação entre concepção e produção, por sua vez, forneceria mais uma poderosa razão para o acirramento da competição em escala mundial: o surgimento de países-usina, cujo exemplo, de longe mais relevante, é certamente a China. A eclosão desta economia em última análise significa o ingresso na competição mundial de uma infindável legião de trabalhadores, ao que consta, extremamente aplicados e ávidos por conhecimento. O próprio mercado local daquela economia vai se revelando um oceano (como já se suspeitava ao tempo de Napoleão), enquanto a escassa dotação de capacidade empresarial vai sendo suprida, em grande medida, por multinacionais - e, claro, pela habilitação crescente de talentos domésticos.
Uma idéia da importância do fenômeno que acaba de ser mencionado pode ser dada pelo fato de que a discussão sobre como se posicionar frente à China, tem ocupado crescente espaço na política norte-americana. Já no que toca ao leste asiático, a explosão chinesa em grande medida define, há pelo menos uma década, a pauta de políticas industriais, tecnológicas, e de comercio exterior. Mais recentemente, diferentes matérias parecem sugerir que a capacidade chinesa de replicar produtos industrializados, a custos baixos, e qualidade crescentemente confiável, começa a ser pensado com um sério desafio por empresas da própria China! Explico-me; as firmas que saíram na frente vêem-se acossadas, competitivamente, por empresas recém surgidas ou recém chegadas! (Veja-se a propósito, Can Chinese Brands Make it Abroad? The McKinsey Quaterly, 113/ 10/2003)
Finalizo com uma única e sumária referência ao Brasil. Valho-me para tanto de uma declaração de Carlos Ermírio de Moraes (Votorantim) acerca do ambiente dos anos 1970 neste país: "Nossa preocupação era fazer fábrica nova e colocá-la para produzir" (Revista Exame, 9 de julho de 2003). Em outras palavras, no ambiente econômico de então, produzir era o grande objetivo. Competia-se, em última análise, com o próprio passado - e a produtividade média da indústria era, de fato, superior à da estrutura econômica que estava sendo superada. Conseqüentemente, faziam sentido, no meu entender, tarifas protecionistas e subsídios - que podiam no entanto assumir proporções e duração abusivas.
Frente ao tipo de desafio com que hoje nos defrontamos, contudo, tarifas protecionistas e subsídios seriam o equivalente a preparar-se para guerras passadas ("forçar portas", na imagem de Schumpeter). Quando mais não seja, porque o espaço econômico nacional encontra-se habitado por multinacionais (que em outras plagas já estão suportando os rigores da competição contemporânea), e porque as próprias empresas nacionais se encontram, via disputa do mercado doméstico, ou via exportações, cada vez mais, sujeitas ao fogo cerrado da competição atual. Em suma: foi detonado um processo de "arbitragem" em escala mundial, que se propaga como as próprias ondas de inovação. E a proteção frente a este novo quadro não pode ser senão o apoio múltiplo ao desenvolvimento de novos produtos, de tecnologias próprias, de novas formas de organizar-se, ou de vender.