Valor Econômico entrevista Antonio Barros de Castro alerta que o governo precisa definir uma política de crescimento
Economista e ex-presidente do BNDES, Antonio Barros de Castro vai contra a corrente daqueles que criticam a atual cotação do câmbio. Para ele, o real está no ponto certo e as exportações vêm crescendo não por "boom" de commodities. Aumentaram de volume, se diversificaram. Castro dirige o grupo de conjuntura do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que, como ressaltou, desde julho está antevendo a retomada da economia brasileira. Para ele, o governo do PT "matou o ovo da serpente" da inflação e, quando ficou claro sua forte reação a reivindicações de aumento de salário e redução de pagamento da dívida de Estados e municípios, a taxa Selic e os juros de mercado começaram a cair.
Ele considera que, neste momento, o governo ainda não tem uma estratégia definida para avançar no crescimento. "O governo conseguiu impedir que o real se tornasse sobrevalorizado, há uma política de exportação muito boa e é só. No mais, estamos no nível do automatismo." No seu entender, não há necessidade de reconstruir setores da economia. Discorda da posição do presidente do BNDES, Carlos Lessa, que defende as grandes obras de infra-estrutura para abrir novos espaços para investimentos. A seu ver, 60 anos depois de Volta Redonda, as empresas brasileiras - que teriam resistido nos últimos 23 anos às "inúmeras intempéries econômicas" e "a juros assassinos" - só aguardam possibilidades inexploradas para voltarem a investir.
No cenário de retomada desenhado pela UFRJ, dada a profundidade do ajuste fiscal e externo brasileiro e a melhor situação da economia internacional, um ataque especulativo que abata a retomada está descartado. A trégua será grande e o importante é o governo não permanecer passivo diante da nova maré de liquidez internacional. Eis a seguir os principais pontos da sua entrevista ao Valor:
Valor: O país está pronto para retomada? Foi solucionada a fragilidade das contas externas ?
Antonio Barros de Castro: (O ex-presidente do Banco Central) Gustavo Franco costumava dizer que um industrial paulista havia descoberto uma nova lei da economia. Segundo essa lei, o câmbio, em qualquer nível que se encontrasse, estava sempre 20% abaixo do que deveria estar. Eu acho que quem insiste hoje na questão do câmbio dá razão à maldade do Gustavo. O câmbio de R$ 2,9 está apenas 5% abaixo da média de 2002 e acima de qualquer outra taxa de câmbio real efetiva desde 1970. Ora, 2002 foi o ano em que começou a virada para valer das contas externas. Além disso, a taxa de R$ 4 foi um ponto isolado que, felizmente, não prevaleceu e, ao desaparecer, ajudou a segurar o surto inflacionário por ele mesmo engendrado. O câmbio está historicamente num ponto muito bom.
Valor: Há quem reclame do câmbio por considerá-lo baixo.
Castro: Essas pessoas diziam em coro, há alguns meses, que as exportações iriam desabar no segundo semestre. No mínimo, estão devendo uma explicação. O desempenho das exportações foi o que nós sabemos e não me venham com efeito "boom" de commodities. As exportações aumentaram em volume, se diversificaram e novos mercados estão sendo abertos. Os preços das commodities não estão em nenhum pico: estão se recuperando de uma longa fase muito ruim. Na realidade, parte dessa melhoria dos preços das commodities provém da depressão dos preços das manufaturas. Está havendo deflação em manufaturas.
Valor: Isso está ocorrendo no mundo todo?
Castro: Sim. Especialmente pronunciado na área da tecnologia da informação. É um movimento que está caracterizado desde pelo menos 1995/96. É frente a essa deflação de manufaturas que a recuperação das commodities parece excepcional. É importante chamar a atenção para o seguinte: na melhoria dos preços das commodities pode estar embutida uma verdadeira mudança estrutural a nível mundial. É a ascensão da China e da Ásia em geral. O (Raul) Prebish dizia que um dos problemas maiores da América Latina após a Primeira Grande Guerra era a substituição da Inglaterra pelos EUA como centro do mundo econômico. Enquanto a Inglaterra sugava o mundo em commodities, os EUA, além de potentes industrialmente, eram um grande exportador de commodities, inclusive agrícolas. Então, no mundo centrado nos EUA, não havia lugar para nós.
Valor: Para nós periferia...
Castro: Exatamente, esta é a questão. A China está se colocando diante do mundo como uma super Inglaterra. E não tem como não ser um grande mercado de produtos primários pois não conta com recursos naturais na proporção da sua população e crescente riqueza. Eu pensaria que o Centro-Oeste e todo o cerrado setentrional poderiam ser uma nova Argentina vis a vis a nova Inglaterra, que é a China. Na retomada tem que se contar as novas chances do país. E isso apenas quanto aos velhos produtos. Que de velho mesmo não têm nada. Por trás de um ovo e um grão de soja tem densidade de conhecimento comparável, talvez, ao aço.
Valor: E como isso se relaciona com a questão do câmbio que o sr. diz que está num bom patamar?
Castro: O desempenho da economia está ótimo com esse câmbio. E digo que tem fatores de peso por trás disso. É todo um novo mundo de possibilidades. Mudanças que vieram para ficar e devem ser incorporadas na formulação de estratégias para o país.
Valor: Não há estratégia para o agribusiness?
Castro: Que eu saiba, não. Mas gostaria de falar dos novos produtos brasileiros, onde incluem-se automóveis, telefones, máquinas agrícolas, vestuário, que começamos a exportar. O problema é que esses produtos, nas economias desenvolvidas, são de mercado saturado. E mais uma vez a gente esbarra com a China. Só que, ao invés de positiva, negativamente. A China não está só crescendo. Faz uma revolução educacional impressionante, multiplica centros de pesquisa, melhora produtos, uma política de emparelhamento. A China está se desenvolvendo no sentido mais amplo da palavra. Está emparelhando à moda dela (com os desenvolvidos). A conseqüência é que esses mercados, de produtos novos para o Brasil, porém velhos no centro, vão ser cada vez mais pressionados pela China. E cuidado, China aqui é também uma figura emblemática, pode ser, também, em mais de um sentido, Vietnã ou Índia. São países agressivos, de salários extremamente baixos e com preocupação educacional pronunciada. É uma revolução mundial em pleno curso.
Valor: E não há espaço para o Brasil?
Castro: A minha resposta é radical. Se for para produzir produtos banais, vender tendo como arma da competição o preço, nós não temos chance. A nossa mão-de-obra é relativamente cara e a nossa carga tributária alta. Por aí não vai. Se for por preço, estamos fora. E se for para ser base passiva de multinacionais, pior ainda. De 1986 para 2000, as exportações chinesas a partir de empresas com algo de multinacional saltaram de 2% para 50%. Então, a fábrica do mundo, usando uma velha expressão inglesa, é a China. E com vários agravantes: é uma Inglaterra muito maior, com ativa política de conhecimento, salários lá em baixo, e disciplina chinesa.
Valor: E quais são as nossas chances?
Castro: É óbvio que em agropecuária e mineração, imensas. Mas, temos, também, uma indústria solidamente implantada e com capacidade de adaptação extraordinária. E ela colaborou decididamente para a resiliência macroeconômica desta economia.
Valor: O que o sr. quer dizer?
Castro: Resiliência é a capacidade de receber um choque, se deformar e voltar à forma. É uma propriedade dos corpos elásticos. A capacidade de resistir às adversidades dessa economia é imbatível. Foi submetida a todas as intempéries, às taxas de juros mais assassinas, e está aí. Sempre liderada pela indústria. Mais do que isso: preservou, fundamentalmente, a sua estrutura. Todos os testes de estrutura têm demonstrado que o perfil estrutural da indústria hoje é o mesmo do início dos anos 90.
Valor: Mesmo com a abertura...
Castro: Claro que houve mortes, desnacionalizações, mas, ao contrário do México, da Argentina e do Chile, não mudou a estrutura. Agora, o que falta testar plenamente é a resiliência micro. No tocante à macro já passou pelo teste. Teve que conviver com a hiperinflação e que suportar a competição trazida pela inundação de importações e passou muito bem pela experiência. No mínimo empatou o jogo no mercado doméstico. O que é lamentável é quando a destruição prevalece, como no Chile e na Argentina de 1976 a 1982. Aí acaba em crise geral.
Valor: E a resiliência micro?
Castro: A resiliência micro está centrada na capacidade de responder a pressões competitivas. As tecnologias contemporâneas são muito flexíveis, convidam à mudança. As empresas podem se proteger, fazer microprotecionismo, com variação de produto. Aí entra o conceito central de inovação, no sentido mais amplo. Mas o potencial da empresa muitas vezes só vem à tona em conjugação com outras empresas, universidades, institutos, e o mercado não induz isso. Hoje cada vez maior é a aliança entre empresas, muitas vezes com apoio público, que permite o desenvolvimento das armas mais afiadas da competição. E nisso estamos atrasadíssimos. Não tem resiliência micro sem envolvimento.
Valor: E a retomada?
Castro: Nosso grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde julho está antevendo a retomada. Surpreendentemente esse governo matou a serpente da inflação, ainda no ovo. A inflação não é mais um problema contemporâneo, mas no caso da chegada ao poder de um governo PT, era. Havia muita reivindicação reprimida que prometia estourar com a chegada do PT: do salário mínimo aos salários dos funcionários públicos e às dívidas dos estados e municípios. Eram três bombas que o PT tinha que desarmar: uma a uma. Quando ficou clara a firmeza do governo, os juros de mercado começaram a ceder. Caindo estes, cairia a Selic. Na seqüência, o próximo passo seria o reaquecimento da demanda de duráveis, não só porque durável é função de crédito. Depois viria o espraiamento para outros tipos de bens. Nós apostamos num roteiro desse tipo. Aposta difícil, pois solada. Um dos membros da nossa equipe, o Caio Prates, estudou as quatro retomadas que ocorreram de 1995 para cá e ficou claro para nós a existência de um padrão de retomada. Também estava claro para nós que a retomada é invariavelmente abatida por cortes de demanda.
Valor: O que corta a demanda?
Castro: É o governo, respondendo à ameaça de crise cambial. O Brasil é um país financeiramente frágil. E os devedores frágeis são levados ao jogo da confiança, como diz o economista (Paul) Krugman. Compram confiança com sacrifício, para poder jogar mais uma rodada. E em meados deste ano era claro que estava se armando uma recuperação, no mínimo uma nova rodada no jogo. Estávamos convencidos de que a nova trégua seria grande, dados a profundidade do ajustamento fiscal e externo brasileiro e o fato de que a economia internacional apresentava condições muito melhores que os sinais disponíveis no episódio anterior.
Valor: Sem ataque especulativo...
Castro: Sem razão alguma para isso. O problema era a imperiosa necessidade de fazer, com malícia, uma política inteligente de segurar o câmbio. No Brasil, é preciso muita desinformação ou maldade, para não se perceber que o governo está ativamente impedindo a valorização do real.
Valor: Qual seria a política de controle de câmbio inteligente?
Castro: O importante é não permanecer passivo diante da nova maré montante de liquidez internacional. O dinheiro expulso pelos baixíssimos juros das economias centrais não pode desorganizar a nossa retomada. Outros países latino-americanos e africanos não conseguem enfrentar a questão. Nós podemos fazê-lo, sem mudar qualquer regra do jogo, como estamos fazendo. É explorar as brechas, evitando ao máximo qualquer tipo de ruptura, que, por mínima que seja, remete tudo de volta ao início. É fazer prevenção de crises, como diz Eichengreen.
Valor: É esta a estratégia para a retomada?
Castro: Não tem estratégia. O governo conseguiu impedir que o real se torne sobrevalorizado. Além disso, há uma política de exportações em ação, muito boa, a julgar pelos resultados. É só. No mais, estamos no império do automatismo. Não está havendo política de retomada. E muito menos política de desenvolvimento. Mas também é preciso dizer que na primeira fase da retomada os impulsos automáticos são muito fortes. Eles podem levar a economia.
Valor: O caminho seria uma política industrial consistente?
Castro: Uma parte dos ativistas crê que é necessário reconstruir setores que ficaram para trás, bem como preparar o terreno para novos investimentos, mediante grandes obras de infra-estrutura. O Lessa vem dizendo que cabe às grandes obras de infra-estrutura abrir novos espaço para os investimentos. Eu discordo desta posição, mas não no sentido de ignorar as carências de infra-estrutura, que, após mais de vinte anos de estagnação, são gritantes.
Valor: O que o sr. defende?
Castro: Vamos e venhamos, quase 60 anos depois de Volta Redonda, ainda é preciso induzir grandes investimentos para criar oportunidades para as empresas? Será que as empresas, até hoje, não desenvolveram capacidade de criar e explorar oportunidades e espaços próprios? Acho que a Usiminas, os produtores de granito do Espírito Santo, uma Embraer, a indústria de calçados do Vale do Sinos, a Gradiente, o pólo de roupas íntimas de Friburgo, a Marcopolo, as flores do Ceará, o software e por aí afora guardam possibilidades inexploradas que virão à tona com a retomada. É nas oportunidades detectadas por empresas que estão em campo, que reside o filão inesgotável do crescimento. A visão do passado era criar, via apoio público, capacidade de produzir. Dela nasceria a competência ou capacitação. Não dá mais para fazer isso. Hoje é preciso ter e desenvolver competência e, na medida que ela comece a dar frutos, sair em busca de recursos para expandir a capacidade. E neste ponto o BNDES é crucial, como o banco da capacidade. Mas não se pode mais, como nos anos 50, partir da capacidade. Nós temos potencial reprimido, enorme. Foram 23 anos de frustrações, lutamos para sobreviver e atravessamos um deserto. A política (industrial) tem de mirar o potencial. O verdadeiro motor do crescimento é o aproveitamento do potencial. Pela última vez lembro que isso deixa um grande papel para o BNDES, como um esteio da formação de capacidade. Mas não é mais para fundar a economia. A economia já está fundada e testada. Nós estamos na indústria há 60 anos.
Valor: O sr. estava falando a partir do que o país já tem...
Castro: Exatamente, uma estratégia que inclui as multinacionais. Temos que ter uma política tentando induzi-la não só a fazer mais investimentos, o que em certos casos pode ser excessivamente caro, como, sobretudo, a trazer funções corporativas mais nobres para cá. Fabricar, somente, vale cada vez menos. É brigar por inteligência e, claro, pelo up grade dos produtos aqui fabricados. Há uma província chinesa que anunciou recentemente que tem US$ 6 bilhões para atrair plantas. Dá para encarar? Creio que não é por aí, pela disputa de investimentos. Isto é algo que JK fez, de forma brilhante. Detalhe: há mais de quarenta anos. Quero só fechar esse ponto dizendo que o Brasil tem que ter uma política industrial e tecnológica concebida para uma economia aberta, relativamente bem dotada em recursos humanos e know how, e imensamente heterogênea. E o foco deveria ser o potencial. Temos que explorar o que está aí. Estamos possivelmente saindo de 23 anos de intermitente asfixia de demanda.
Valor: E como prosseguir?
Castro: No momento é o pulo inicial da galinha. Mas estou vendo condições de prosseguir. Como todo mundo é pessimista a este respeito, costumo dizer que vamos voar sem saber como, seria o vôo do besouro. Eu gostaria que fosse mais além, ultrapassando o besouro, pela inteligência.
Valor: Vencemos a incredulidade dos investidores internacionais?
Castro: Que incredulidade? Fomos campeões de atração de investimentos, justamente quando estávamos ladeira abaixo. Agora, nota-se em alguns meios um certo cansaço com relação ao Brasil, com as crises brasileiras. O que me parece justificado, e combina com a euforia em relação à China.
Publicado pelo Valor Econômico, 17/12/03 - assinam a matéria Heloisa Magalhães e Vera Saavedra Durão